Durante anos, repetiu-se que a TV estava morta. Mas a verdade é que a TV linear (com sua grade fixa e programação em tempo real) já vinha em declínio constante desde o início dos anos 2000 — bem antes do streaming explodir no Brasil por volta de 2012–2015. A expansão da internet, redes sociais, fragmentação do público e novos hábitos digitais já roubavam tempo de tela há décadas, iniciando uma erosão gradual.
Depois veio o streaming e acelerou o processo: nunca tivemos tantas opções para assistir, e ainda assim a sensação de cansaço aumentou. O problema deixou de ser acesso ao conteúdo e passou a ser o excesso de escolhas.
Hoje, muitas pessoas passam mais tempo navegando catálogos do que assistindo algo de fato. A fadiga da decisão virou um fenômeno real e documentado.
O esgotamento do streaming e da personalização
O streaming resolveu a distribuição, mas não resolveu completamente a experiência. Os algoritmos aprendem rápido, porém tendem a entregar sempre variações do mesmo padrão.
A promessa de personalização virou repetição confortável. Séries parecidas, filmes previsíveis, sugestões baseadas em hábitos antigos. A sensação de descoberta diminuiu drasticamente.
Em vez de liberdade, muitos usuários sentem fadiga. A pergunta deixou de ser “o que quero assistir?” e passou a ser “por que é tão difícil escolher?”.
Por que eventos ao vivo continuam relevantes
Enquanto isso, conteúdos ao vivo seguem resistindo com força total — e o segredo está na experiência coletiva que eles criam. O futebol ainda para o país em jogos decisivos: Brasileirão, Libertadores ou Copa do Mundo, com famílias e amigos reunidos, torcendo juntos, comentando cada lance e prolongando a conversa no dia seguinte no trabalho ou na escola. O BBB (Big Brother Brasil) reúne milhões ao mesmo tempo na estreia, nos paredões e na final, gerando memes instantâneos, grupos de WhatsApp fervendo e debates intermináveis na segunda-feira. E o Carnaval, com transmissões ao vivo das escolas de samba, vira um ritual nacional: todo mundo assistindo, vibrando com os desfiles e compartilhando reações em tempo real.
Esses momentos não são só entretenimento: eles criam uma realidade compartilhada. Lembra dos finais de novela que esvaziavam as ruas? Em 2012, o último capítulo de Avenida Brasil parou o Brasil — ruas desertas em São Paulo e Rio, trânsito parado, gente correndo para casa, bares lotados com telões, e até a agenda presidencial alterada para não competir com a novela. A emoção coletiva era palpável: todo mundo queria saber o destino de Carminha e Nina ao mesmo tempo, e no dia seguinte o país inteiro comentava o desfecho. É essa conexão simultânea — assistir junto, reagir junto, lembrar junto — que o streaming on-demand ainda não consegue replicar totalmente.
Isso não é nostalgia. É comportamento humano puro: a necessidade de pertencer a algo maior, de compartilhar emoções em tempo real e de ter assuntos em comum no dia seguinte.

A TV no mundo da IA: retorno ou transformação?
Com o avanço da inteligência artificial, o futuro provavelmente não será escolher infinitamente o que assistir, mas ser conduzido ao que está acontecendo agora e importa naquele momento — inclusive destacando eventos coletivos que valem a pena assistir junto.
Menos catálogos infinitos, mais fluxo. Menos decisões exaustivas, mais contexto relevante. A IA pode ir além de recomendar conteúdos: ela organiza a experiência de forma mais humana, criando grades pessoais, destacando o que todo mundo está comentando em tempo real e até integrando interatividade para votar ou reagir ao vivo.
Nesse cenário, a TV não volta exatamente como era. Ela se transforma. Em dezembro de 2025 (dados mais recentes da Kantar Ibope, divulgados em janeiro/2026), a TV linear ainda domina com 62,8% do consumo total de vídeo no Brasil, contra 37,2% do vídeo online (incluindo streaming como YouTube, Netflix e TikTok). O que está ressurgindo com força é a experiência linear e de fluxo, especialmente via canais FAST (Free Ad-Supported Streaming TV) como Pluto TV, Samsung TV Plus, Tubi, Roku Channel e outros, que crescem rápido no Brasil em 2026, oferecendo grade gratuita, sem assinatura, imitando a programação tradicional em smart TVs. E olhando para frente, a TV 3.0 (ou DTV+), com lançamento inicial previsto para 2026, promete unir ainda mais essa gratuidade aberta com interatividade e qualidade superior, reforçando essa transformação coletiva.
Claro, o streaming on-demand não vai morrer — ele continua crescendo e batendo recordes. Mas está sendo obrigado a reaprender com a TV o valor do “acontecer junto”, do “deixar rolar” e da curadoria contextual.
O ao vivo, a curadoria em tempo real e a experiência coletiva ganham novo fôlego em um mundo cansado de decisões algorítmicas infinitas.
Talvez o erro nunca tenha sido a TV, mas tentar transformar toda experiência audiovisual em uma lista interminável.
Quando o algoritmo cansar, talvez descubramos que a televisão não estava morrendo, apenas se transformando.